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Avicena
- O Sistematizador  -

                Aproximadamente, após trinta anos da morte de Al-Farabi, nasceu Avicena (Ibn Sina) no ano de 980 d.C / 370 H. próximo a Bukhara, região da antiga Pérsia, atual Uzbequistão. Avicena alcançou o perfil de filósofo universal, versado em todos os saberes, levando não só a falsafa ao seu apogeu, mas, também, a história do pensamento a um de seus zênites Seu nome ultrapassando, assim,  os limites da própria falsafa, foi colocado ao lado dos maiores nomes da  história. Três aspectos  levaram a esse quadro: o primeiro foi por Avicena ter recolhido grande parte das ciências e da filosofia de sua época; o segundo, por ele ter sistematizado e reelaborado esse conjunto, resultando em uma abordagem própria e renovadora; e o terceiro diz respeito à sua presença marcante nos destinos da filosofia e das ciências posteriores fosse no Oriente fosse no Ocidente.

              Gênio precoce que aliava um esforço sem limites para aprender tudo o que lhe caía às mãos, Avicena foi um auto-didata na maior parte de sua vida e abarcou os principais conhecimentos de sua época. Ao mesmo tempo, tornou-se um dos mais notáveis médicos que se teve notícia e ocupou cargos administrativos junto aos soberanos de seu tempo sem deixar de escrever, simultaneamente, muitas páginas por dia.

              Sua obra é bastante extensa, chegando a 276 títulos. Dentre todas elas, A Cura, escrita em árabe,  é a mais completa  obra de Avicena, um  marco da história da ciência e da filosofia em que há um certo afunilamento, uma reunião, na qual tudo o que fora  produzido  nesse âmbito  tende a  repousar,  como síntese dentro de seus limites e, por outro lado, muito do que veio a ser realizado depois, parte, também, dessa síntese, então realizada.

           Na arte médica, Avicena figurou entre os maiores médicos da história da medicina, pertencendo à tradição herdada dos gregos pelos árabes pela qual foram difundidas muitas teorias de Hipócrates e de Galeno. Sua obra Cânon de Medicina, uma síntese dos conhecimentos médicos de sua época e de suas próprias experiências, foi adotada nas universidades europeias até o séc. XVI d.C., –   portanto, por mais de quinhentos anos após sua morte – como texto de base para o ensino médico.

           Na área da filosofia suas principais fontes foram as obras de Aristóteles e as teses de Al-Farabi. Deste herdou principalmente a doutrina cosmológica com a vasta descrição metafísica e sistemática do mundo, a hierarquia das inteligências e a processão das esferas do Existencialmente Necessário até o mundo sublunar, ligando o pensamento plotiniano da processão à doutrina aristotélica do intelecto. O Livro da Alma e a Metafísica de Avicena são dois exemplos marcantes do alto impacto de suas ideias na elaboração de um sistema filosófico completo e harmônico em suas partes.

 

          A excelência simultânea nas duas áreas do conhecimento, isto é, medicina e filosofia, é um guia importante quando se quer compreender as relações que Avicena estabeleceu entre as teorias médicas e as filosóficas, relações que culminaram em sua psicologia de caráter psicossomático.

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Acesse o site Muslim Philosophy no qual estão disponíveis alguns livros de Avicena em árabe ou em traduções para línguas modernas, assim como artigos e comentários de outros estudiosos. 

Fonte ©: Selo comemorativo de Avicena. França, 2005. Detalhe.
 

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Shadow on Concrete Wall

O Livro da Alma de Avicena

O Livro da Alma traz as bases da Psicologia Psicossomática de Avicena, tanto sob uma perspectiva especulativa e filosófica, com base na análise das funções racionais, das emoções e das percepções, como também por uma perspectiva médica, a partir da identificação de causas orgânicas para sintomas psíquicos.

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  O Livro da Alma foi escrito por volta de 1022, e faz parte de sua obra enciclopédica A Cura, na qual Avicena procurou reunir as Ciências e a Filosofia em um sistema de pensamento próprio, ordenando os assuntos nas diversas áreas do saber de modo harmônico e dinâmico. O Livro da Alma faz parte do tomo das Ciências Naturais e introduz o estudo dos seres vivos a partir da constatação de um princípio autônomo, que os move, denominado alma. Avicena evidencia a existência da alma por meio da observação dos corpos da Natureza e, no caso dos humanos, por meio de um movimento de imersão intrapsíquico que leva o indivíduo à consciência de si próprio. A partir disso, O Livro da Alma apresenta, classifica e explica o funcionamento das diversas faculdades da alma em seus níveis vegetativos, animais e humanos. Seguindo a partir das funções básicas do corpo que envolvem a nutrição, o crescimento e a reprodução, passando pelas funções de percepção e do movimento, Avicena conclui a hierarquia das faculdades com o estudo das funções racionais da alma humana. Em uma série de análises sobre a dinâmica de todo o conjunto das faculdades, Avicena estuda o caráter da percepção dos cinco sentidos externos, a imaginação, a intuição e a memória a partir de suas respectivas localizações no cérebro, a questão do desejo, dos sonhos e das premonições e, ao final, se detém no estudo sobre o intelecto, faculdade que permite aos humanos conceberem um universo de conceitos, ideias e abstrações. Em todo esse trajeto, O Livro da Alma fundamenta a Psicologia a partir da filosofia e da medicina, simultaneamente. Em uma perspectiva psicossomática, para Avicena, o corpo e a alma são duas substâncias que seguem juntas durante a existência nesta vida. Assim, as faculdades da alma e do corpo, hierarquizadas do nível corpóreo para o nível incorpóreo, operando de maneira colaborativa, levam o intelecto humano a ampliar seu entendimento sobre as coisas, conectando-o aos princípios supremos presentes nas inteligências superiores do Cosmos, por meio das quais a alma adquire a verdade e, agindo em vista do bem, torna-se imortal.